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7.21.2011

ANATOMIA DO PRESENTE

a bacia plena de descuidos, a espinha prolixa de entortamentos. e no sorriso as faces encurvam-se em covas (as covas úmidas de lágrimas quando as pede a circunstância) as mãos polpudas, as unhas enxeridas procurando assunto entre os pudores dos buracos. sempre os pés bem dispostos à preguiça. no pescoço o inconfundível colar de carrapatos - as orelhas arruinadas entre os brincos, os seios tímidos ante a franqueza do umbigo. as coxas reles a pele desamparada frente à gravidade, os joelhos resignados frente à gravidade dos calçados, dos pecados. as sobrancelhas desgarradas, as pálpebras se batendo incomunicáveis – os dentes roendo as maçãs do rosto, a língua enrolando o caroço
de morte em morte se recompõe este delicado ossuário, que assim enfeitadinho de gorduras se expõe, comungando estrias e coceiras, delicadeza que então tosse e range, pisa torto – essa carne exígua contra os desmandos da antimatéria, dos mistérios, da música – assim, amiúde, se coloca a carne exígua contra os paradigmas e as paredes, se coloca mas desafina, toda terra, formigas nas axilas

ANATOMIA DA MEMÓRIA

Caríssimos convivas:
quando criança eu amei um animal que não existe.
Esse amor triste às vezes me inflamava as amídalas
mas no mais das vezes era alegria:
num meio pingo dágua
de através os cílios
meu olho hipermétrope era microscopia.
E assim, caríssimos, eu era donzela-cientista
(e donzela digo
com a palavra em seu grau mais riso)
Em meio a esse amor violento de invenção aprendi uns silêncios
pra mantê-lo vivo
e uns estrebilhos pra vingar canção
Ele me ensinou a aproveitar na queda o colo do ar
e assim eu pude, para o assombro doutros convivas,
 ficar boiando perto do teto
(eu só descia quando aquele airoso colo ameaçava ventania)
Ainda que excelsa montaria,
inexistido o animal era simples:
tinha ser de égua e alga,
montanha de azul sem nome:
brinquedo de lama e amuleto
passaredo e olaria.
Inexistido ele era vapor e planta,
além de carne, cascos, escamas
- e sei que mesmo nomeando tantas conhecidas substâncias,
os alegres convivas não o distinguiriam
dum inseto entorno da lâmpada.

Pra afugentar a tentação de realidade,
ele trazia na testa o branco corno
(os convivas compreendam: era apenas guarnição –
disfarçado de mitologia
o amor estava preservado da loucura e da verdade)

Depois de submeter sua delicada inexistência
a esta dissecação lírica
frente aos olhos de meus convivas
faço ao animal um apelo:
 que, entre os grandes e os sérios,
 machos e fêmeas, os adultos,
ele sobreviva
e que, de tão vivo, ria, generoso, 
deste carinho torto que fiz-lhe,
este limbo de linho e água
                                 esta gaiola - algaravía)